O redemoinho vermelho

Chovia na mata. As gotas caíam e rebatiam nas pedras da trilha que ligava o vilarejo mais próximo à estrada. À luz da lua cheia, uma mulher, com grilhões nos tornozelos, suportava o peso das correntes e de uma criança negra como ela.

Muitos escravos marcados como gado sequer sonhavam viver o sofrimento que, aos dois anos, o menino sentiu. Lacerações e mutilações, promessas de contenção do “demônio” encarnado na criança, faziam parte da rotina. A tempestade atravessava a cobertura de palha da baia e o hidratava. Eram dias e noites sem comida. O pé direito, amarrado às toras de sustentação, o mantinha preso ao cheiro e à lama remexida pelos porcos. Continuar lendo

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Crônicas do Fim do Mundo

Próxima partida

A chuva começa a cair lentamente. Eu a permito molhar meu sobretudo. Uma ou duas gotas caem sobre o pequeno tíquete de papel. Eu leio o meu destino e vislumbro o futuro, longe de tudo o que construí, longe de tudo o que eu sou.

Na mochila: objetos genéricos e roupas compradas em lojas de conveniência baratas. Na mente: nada. Meu corpo está anestesiado. Uma poça d’água provoca a única sensação que sou capaz de ter, ao encharcar a palmilha do meu tênis.

Faltam quinze minutos e, se você soubesse de verdade tudo o que passei, acharia um absurdo eu estar sentado nesse banco de madeira sob a chuva. Porém, nada importa desde que seus olhos verdes deixaram de piscar ao meu lado. Continuar lendo

Um atleticano no interior de São Paulo

Quem pensa no Atlético, diz “Galo”. Vê, no time do impossível, uma massa que motiva. A multidão que acredita. A multidão que, mesmo num dia como o de hoje, de derrota para o rival, continua torcendo contra o vento.

Torcer para o Atlético no interior de São Paulo já é bem diferente. Sou o desafiante, o forasteiro. Aquele que sempre joga como visitante e se identifica com o som de milhares de vozes que vem de longe.

Ser atleticano “fora de sua casa” traz angústias e prazeres particulares. É como viver em uma realidade paralela. Enquanto corintianos, palmeirenses, são-paulinos e santistas se digladiam, o atleticano permanece em sua torcida solitária no sofá. Continuar lendo

Trinta

Madrugada.

Notificações do celular me forçam a ativar o “não perturbe”. De pé. Banheiro, remédio no nariz, comprimido contra a gripe, água no rosto. O sono chama. Na sala, Fred e Frida não se dão. Um não aceita a comida. Outra tenta destruir a poltrona. Os dois para fora. Cama. Gripe dá calafrios. Esposa abraça. Nariz entupido não deixa dormir. Queimação não deixa dormir. Fones de ouvido e um livro. Durmo. Continuar lendo

O bolo dos tolos

“A economia vai bem, mas o povo vai mal.” Foram as palavras do General Emílio Garrastazu Médici, então presidente brasileiro, sobre o avanço da economia no Brasil. O crescimento realmente existiu, mas às custas de medidas que exploravam a população como o arrocho salarial. Em contrapartida, o AI-5 impedia a oposição da imprensa e manifestações dos empregados. Continuar lendo